O advogado e analista moçambicano, Alexandre Chivale, criticou duramente a estrutura salarial dos membros do Conselho de Administração do Banco de Moçambique (BM). Em debate num painel televisivo da MBC, Chivale classificou as remunerações dos administradores como “salários principescos” que “extrapolam os limites do razoável”, questionando a ética da gestão numa altura em que o banco central regista prejuízos financeiros históricos.
As declarações surgem no contexto da divulgação do mais recente relatório e contas do Banco de Moçambique, que revelou um gasto superior a 300 milhões de meticais em salários e regalias para apenas nove administradores durante o exercício económico de 2025, um período em que a instituição acumulou um prejuízo líquido recorde de 13,34 mil milhões de meticais.
Durante a sua intervenção, Chivale rebateu os recorrentes apelos da liderança do banco central a favor da poupança das famílias moçambicanas, sugerindo que tais discursos estão desalinhados com a realidade da maioria da população.
“O governador do banco fala muito da poupança, agora estamos a perceber porque é que ele fala tanto da poupança. Para o salário dele é muito fácil poupar, mas para o moçambicano comum já não é”, afirmou o analista.
O painel destacou ainda o facto de o topo da liderança auferir mensalmente valores estimados entre 3 a 4 milhões de meticais, beneficiando adicionalmente de todas as despesas de custo de vida totalmente cobertas pela instituição, tais como habitação e viaturas de função.
Outro ponto crítico levantado pelo causídico diz respeito à autonomia e ao posicionamento institucional do BM face aos restantes órgãos de soberania. Chivale referiu-se ao banco central como uma “república autónoma dentro do Estado moçambicano”, apontando o que considera ser uma falta de respeito institucional por parte do Governador, Rogério Zandamela.
“Temos um governador do Banco de Moçambique que simplesmente recusa-se a aceder às convocatórias da Assembleia da República. Vemos um governador de banco a achar-se acima de qualquer instituição neste país, não cumpre sequer as leis, mas sanciona vários bancos porque estes teriam cometido alguns deslizes”, criticou.
O debate colocou também em evidência a disparidade salarial na função pública e no sector empresarial do Estado. De acordo com o moderador do programa, o figurino actual permite que administradores de empresas públicas e do banco central aufiram salários significativamente superiores ao do próprio Chefe de Estado — uma distorção que, segundo Alexandre Chivale, “não faz sentido” numa lógica de hierarquia de Estado.