O stock da dívida pública interna fechou o exercício económico de 2025 fixado em 474,5 mil milhões de meticais, forçando os principais bancos comerciais moçambicanos — Millennium bim, BCI, Standard Bank e Moza Banco — a pesadas provisões para mitigar o risco soberano e a degradação dos rácios de crédito.
O stock da dívida pública interna de Moçambique encerrou o exercício económico de 2025 com uma cifra astronómica de cerca de 474.508,8 milhões de meticais (equivalente a 7.414 milhões de dólares norte-americanos). Estes números, apurados com base na Conta Geral do Estado (CGE), estão a impactar de forma severa os balanços e os resultados líquidos dos maiores bancos comerciais a operar no ecossistema financeiro doméstico, em virtude da elevada exposição aos títulos soberanos.
O atraso crónico no pagamento de instrumentos da dívida pública, com particular enfoque para os Bilhetes de Tesouro (BT) de curto prazo e Obrigações de Tesouro (OT) de médio e longo prazo, aliado ao consequente agravamento do risco país, forçou as instituições financeiras a constituírem pesadas imparidades para proteger os seus respetivos balanços face à perda real de valor dos activos.
Os dados refletidos na CGE citados pelo jornal Savana, demonstram que a dívida interna cresceu 16,6% em 2025, impulsionada pela tendência de maior procura por instrumentos de endividamento para o financiamento do défice crónico de tesouraria do Estado. Entre os mecanismos mais utilizados destacam-se a facilidade de crédito junto do Banco de Moçambique (BM) e as novas emissões sistemáticas de BT. Face a este cenário, analistas financeiros nacionais manifestam forte preocupação, argumentando que este ritmo contínuo de endividamento sufoca a sustentabilidade fiscal e drena a liquidez que deveria financiar o sector privado.
A 31 de Dezembro de 2025, o resultado líquido do Millennium bim, um dos maiores bancos comerciais moçambicanos, afundou para uns históricos 201 milhões de meticais, o que representa um recuo drástico de 94% face aos 3.309 milhões de meticais alcançados em 2024. A administração do banco confirmou que teve de constituir cerca de 5,9 mil milhões de meticais em “imparidades relativas à dívida pública”.
Adicionalmente, a instituição procedeu a um aumento da imparidade para a carteira de crédito devido à maior probabilidade de incumprimento por parte de determinados segmentos empresariais, fortemente afectados pelo actual contexto macroeconómico adverso e pelas manifestações pós-eleitorais que paralisaram o comércio.
O Banco Comercial e de Investimentos (BCI) fixou os seus resultados líquidos em 3.604 milhões de meticais em 2025, correspondendo a uma redução de 40,3% face aos 6.039,73 milhões de meticais registados no período homólogo de 2024. O desempenho do banco foi severamente penalizado pelo reforço de imparidades devido à exposição à dívida pública e por custos extraordinários relacionados com processos de devolução de comissões e juros aos clientes, por imposição e auditoria do Banco de Moçambique, no âmbito do Aviso n.º 19/GBM/2017.
Paralelamente, o BCI foi apontado pelo banco central como a instituição financeira com maior volume de queixas e reclamações por parte dos utentes durante o segundo semestre de 2025, registando 168 reclamações de um universo total de 483 processos submetidos ao regulador. Seguem-se o Millennium bim com 84 e a carteira móvel M-Pesa com 35 queixas.
Por sua vez, o Standard Bank deparou-se igualmente com uma contração nos seus indicadores. O lucro líquido da instituição recuou 26% em 2025, fixando-se em 4.526 milhões de meticais. O relatório financeiro do banco justifica esta quebra com a exposição ao risco soberano, escassez de divisas no mercado cambial e consequente contração na concessão de crédito ao sector privado. O Retorno sobre o Capital Próprio (ROE) do Standard Bank registou uma descida expressiva para 12,3%, face aos 17,7% observados em 2024.
O cenário mais crítico reflete-se nas contas do Moza Banco, que encerrou o exercício económico com um resultado líquido negativo de 3.919,5 milhões de meticais. A instituição justifica as perdas com a aplicação de medidas extraordinárias e não recorrentes para reforço da cobertura de risco e otimização do balanço estrutural.
Apesar de o Presidente da Comissão Executiva (PCE) do Moza, Manuel Soares, ter classificado o ano como um período de “decisões responsáveis e estruturantes” para garantir a robustez futura da instituição, fontes do mercado financeiro e auditores independentes apontam que o desempenho foi altamente penalizado por créditos malparados resultantes da quebra generalizada da actividade económica nacional.
De acordo com os dados consolidados da Conta Geral do Estado, o stock total da dívida pública global de Moçambique (interna e externa) fixou-se em 1.090 mil milhões de meticais (cerca de 16.180,9 milhões de dólares), o que representa um rácio dívida/PIB de 72,23% em 2025. O Orçamento do Estado foi financiado em 93,5% por recursos internos e apenas 6,5% por recursos externos, evidenciando o elevado grau de dependência e sufoco do mercado de capitais doméstico.
Fontes do sector financeiro confidenciaram ao jornal Savana que o Governo moçambicano já se encontra a desenhar uma estratégia para negociar directamente com os bancos comerciais a dívida titulada em BT e OT. O objectivo do Executivo passa por propor uma reestruturação que poderá incluir “pedidos de cortes” (haircuts) ou extensão de maturidades, funcionando como uma espécie de desconto para aliviar a tesouraria pública. Para os gestores bancários, a constituição agressiva de imparidades reflete uma estratégia coordenada para forçar o Executivo a adotar medidas urgentes de saneamento e consolidação fiscal.
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