Meio milhão de jovens moçambicanos disputam apenas 30 mil vagas de emprego todos os anos

O sonho de concluir a formação superior e iniciar uma carreira profissional está a transformar-se num autêntico pesadelo para a juventude moçambicana. Uma investigação recente da STV expõe o cenário dramático de um mercado de trabalho saturado e incapaz de absorver a crescente massa de recém-licenciados que, todos os anos, sai das universidades e institutos técnicos do país.

Os dados estatísticos revelam um abismo preocupante entre a oferta e a procura de emprego: estima-se que, todos os anos, cerca de 500 mil jovens entrem no mercado à procura de uma oportunidade de trabalho. Contudo, a economia nacional apenas consegue gerar e preencher cerca de 30 mil vagas anuais. O resultado desta equação é alarmante, deixando mais de 400 mil jovens votados ao desemprego ou empurrados para a precariedade do sector informal.

A realidade por trás dos números ganha rostos e vozes que espelham a frustração de uma geração. É o caso de Firmino, licenciado em Publicidade e Marketing pela Escola Superior de Jornalismo desde 2015. Sem um emprego estável há cerca de quatro anos, Firmino viu-se obrigado a deixar a vergonha de lado e a levantar um cartaz a pedir emprego nos semáforos das avenidas de Maputo, distribuindo o seu currículo aos motoristas que se sensibilizavam com a sua situação.

“Nós só nos formamos, se calhar, para ter conhecimento (…) mas trabalhar na nossa área é muito difícil”, desabafa Marisa, de 30 anos, licenciada em Ensino de História.

Mesmo após estagiar numa escola secundária da capital, Marisa aguarda há dois anos por uma vaga no sector da educação — uma área cronicamente afectada pelo défice de professores, mas que esbarra na falta de cabimento orçamental e de contratações públicas. A jovem relata o pesado desgaste psicológico e a pressão social decorrentes da falta de estabilidade profissional.

Especialistas e analistas ouvidos pela reportagem apontam que o desemprego jovem em Moçambique é, acima de tudo, um problema estrutural. Decorre da manifesta incapacidade da economia nacional em gerar postos de trabalho à medida das necessidades da sociedade.

Mesmo instituições de prestígio, como a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que graduou mais de 5.300 profissionais entre 2023 e 2025, veem os seus graduados sem espaço de enquadramento. Há também relatos de jovens que enfrentam esquemas de corrupção, sendo forçados a pagar valores monetários ou a depender de “cunhas” (familiares e conhecidos) apenas para conseguir um estágio.

A solução, segundo os analistas, exige que todas as políticas públicas e projectos económicos aprovados no país tenham a criação de emprego como foco central, contabilizando rigorosamente as vagas e apostando numa formação que responda ao perfil real exigido pelo mercado de trabalho. Enquanto as reformas estruturais não avançam, milhares de diplomas continuam guardados nas gavetas, servindo apenas como recordação de um futuro que tarda em chegar.

Imagem: DR

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