A companhia aérea de bandeira, LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, está finalmente prestes a colocar em operação os seus dois novos jatos Embraer E190. A novidade surge após sucessivos meses de atraso que alimentaram acesos debates nas redes sociais e nos corredores políticos do país, devido à longa e misteriosa permanência das aeronaves em solo sul-africano.
De acordo com informações avançadas pela publicação internacional especializada CH-Aviation, os aviões deverão iniciar os voos comerciais muito em breve. O arranque operacional é visto como um passo de oxigénio no complexo processo de recuperação da companhia estatal.
Os referidos Embraer E190 constituem a primeira compra de raiz significante efectuada pela LAM em quase 18 anos. Os jatos foram adquiridos em finais de 2025 à empresa norte-americana Regional One, num investimento global avaliado em cerca de 25 milhões de dólares. Cada aparelho tem a capacidade para sentar aproximadamente 100 passageiros, sendo uma tipologia de aeronave bastante elogiada no mercado regional pela sua eficiência e flexibilidade em rotas domésticas de média densidade — ajustando-se à actual realidade do mercado moçambicano.
Contudo, estas aeronaves trazem já uma longa folha de serviço. Antes de ostentarem as insígnias moçambicanas, serviram durante perto de duas décadas a KLM Cityhopper, uma conhecida subsidiária regional da companhia holandesa KLM na Europa. O plano inicial previa a sua rápida integração nas rotas nacionais, mas o processo “encravou” na África do Sul, onde os aviões permaneceram retidos até ao final de maio de 2026 sob a justificação oficial de trabalhos de pintura e ajustamentos mecânicos para a nova identidade visual da transportadora.
Esta demora na entrega dos jatos não passou despercebida às investigações e ao escrutínio público, que associam a imobilização a problemas muito mais profundos do que uma simples renovação de imagem.
Investigações recentes do jornal Canal de Moçambique apontam que os dois aparelhos enfrentaram sérios entraves operacionais e logísticos durante a sua estadia em Joanesburgo. Fontes ligadas ao sector técnico revelaram a existência de avarias mecânicas ocultas e dificuldades severas na obtenção de peças sobressalentes e óleos específicos indispensáveis para garantir a aeronavegabilidade segura dos jatos.
Para além do factor mecânico, o caso ganhou contornos mais graves devido ao histórico diplomático e financeiro da companhia. A investigação associa o impasse ao bloqueio comercial que a própria fabricante brasileira Embraer impôs à LAM no passado, na sequência de escândalos históricos de corrupção, o que terá impedido a operadora nacional de ter assistência técnica directa e acesso facilitado ao pool de peças originais, obrigando a soluções complexas no mercado secundário sul-africano. Adicionalmente, as investigações em torno deste atraso chamam a atenção para as pesadas taxas de estacionamento diário acumuladas na África do Sul, estimadas em milhares de dólares, penalizando ainda mais os cofres da empresa estatal antes mesmo de os aviões gerarem qualquer receita.
Com o aval técnico agora assegurado, a chegada definitiva dos E190 visa reduzir a forte dependência que a LAM tem de aviões alugados a terceiros (leasing), prometendo melhorar a pontualidade e a fiabilidade dos voos domésticos. O projecto de salvação conta com o apoio directo do Governo de Moçambique, que mantém a meta de estabilizar o transporte aéreo nacional, existindo já manifestações de interesse para adquirir mais aviões caso o mercado responda positivamente nos próximos tempos.
Imagem: DR