Afungi pode criar a primeira geração de campeões empresariais, mas o tempo para preparar as nossas empresas está a esgotar-se
“O verdadeiro legado do Mozambique LNG não será apenas exportar gás. Será construir uma nova economia de fornecedores nacionais capazes de competir nos maiores mercados de Oil & Gas do mundo”.
Há momentos em que uma economia deixa de ser observadora do seu futuro e passa a escrevê-lo. Na minha leitura, é precisamente esse o ponto em que Moçambique se encontra com a retoma do Mozambique LNG. O debate já não deve centrar-se apenas na dimensão do investimento, estimado em cerca de 20 mil milhões de dólares, nem na capacidade instalada de 13,1 milhões de toneladas anuais de gás natural liquefeito. O verdadeiro teste consiste em saber se este megaprojecto será capaz de produzir um efeito multiplicador suficientemente robusto para transformar o tecido empresarial moçambicano ou se continuará a reproduzir o conhecido modelo de economia extractiva, onde se exportam recursos naturais enquanto se importam competências, tecnologia e cadeias de fornecimento.
Na minha perspectiva, o maior risco económico do Mozambique LNG já não reside apenas na volatilidade dos mercados energéticos ou nos desafios de segurança em Cabo Delgado. O risco mais silencioso é permitir que o conteúdo local permaneça uma intenção política em vez de se afirmar como uma estratégia económica estruturante. Um país não industrializa apenas porque possui recursos naturais, industrializa quando transforma o investimento em conhecimento, os contratos em competências e o procurement numa verdadeira política de desenvolvimento empresarial.
O recente apelo da TotalEnergies para que as empresas moçambicanas se posicionem nas operações onshore, offshore, marine e subsea deve ser interpretado precisamente sob esta óptica. Mais do que um convite, trata-se de uma oportunidade para redefinir a arquitectura económica do sector energético. Contudo, oportunidades económicas não produzem desenvolvimento por inércia. Exigem instituições que organizem mercados, reduzam assimetrias de informação, facilitem financiamento e acelerem a competitividade das empresas nacionais.
- O Verdadeiro Activo Económico De Afungi Não Está Apenas No LNG, Mas Na Cadeia De Valor Que Pode Nascer À Sua Volta
Existe uma tendência para avaliar o sucesso dos projectos de gás exclusivamente através das exportações, das receitas fiscais ou do crescimento do Produto Interno Bruto. Embora estes indicadores sejam relevantes, considero que existe uma métrica muito mais determinante: quantas empresas moçambicanas sairão deste projecto maiores, mais competitivas, mais certificadas, financeiramente mais sólidas e aptas a disputar contratos internacionais.
O Mozambique LNG representa um dos ecossistemas industriais mais sofisticados alguma vez desenvolvidos no continente africano. A sua operação exige uma extensa cadeia de fornecimento que integra engenharia, construção pesada, logística, manutenção industrial, tecnologias de informação, segurança operacional, gestão ambiental, transporte marítimo, serviços subsea, facilities management, catering industrial, gestão documental, soldadura especializada, instrumentação, calibração, controlo de qualidade, energia, telecomunicações e dezenas de outros segmentos especializados.
É precisamente nesta malha de actividades que reside o maior potencial económico do projecto. O verdadeiro activo de Afungi não será apenas o gás que partirá para os mercados internacionais, mas sim a profundidade da cadeia de fornecedores que Moçambique conseguir consolidar durante décadas de operação.
As experiências da Noruega, da Malásia e do Brasil demonstram que o verdadeiro retorno dos recursos naturais nasce quando o conteúdo local deixa de ser interpretado como uma obrigação regulatória e passa a funcionar como uma estratégia de produtividade. Empresas que fornecem à indústria de Oil & Gas absorvem normas internacionais de qualidade, reforçam a governação corporativa, adoptam rigorosos padrões de Health, Safety and Environment (HSE), investem em certificações internacionais e elevam permanentemente os seus níveis de eficiência. Estes efeitos geram aquilo que a literatura económica designa por spillovers de produtividade, criando capacidades que permanecem muito para além da duração de um único contrato.
2. O Maior Bloqueio Das Empresas Moçambicanas Continua A Ser A Ausência De Um Mercado Organizado
Apesar da evolução registada nos últimos anos, continuo convencido de que o principal obstáculo enfrentado pelas empresas nacionais não é a falta de capacidade técnica, mas sim a insuficiente organização do mercado.
Hoje, muitas oportunidades chegam tarde, fragmentadas ou apenas às empresas que já se encontram inseridas nos circuitos tradicionais de informação. Entretanto, centenas de pequenas e médias empresas permanecem afastadas não por falta de competência, mas porque desconhecem, com antecedência suficiente, quais serão os próximos concursos, quais os requisitos técnicos exigidos e quais as certificações necessárias para participar.
Uma empresa não constrói capacidade financeira em poucas semanas. Não obtém certificações ISO, sistemas HSE ou demonstrações financeiras auditadas no curto prazo. Também não estabelece consórcios, mobiliza equipamentos ou negocia linhas de crédito de um momento para o outro. A indústria de Oil & Gas exige preparação antecipada, previsibilidade e planeamento.
Embora iniciativas como o MozUp tenham desempenhado um papel relevante, tendo apoiado mais de 1.200 fornecedores e reunindo actualmente mais de 3.200 empresas registadas, considero que Moçambique ainda necessita de evoluir para um verdadeiro Sistema Nacional de Inteligência Comercial para o sector energético. Não basta divulgar concursos. É necessário divulgar previsões de contratação com doze a dezoito meses de antecedência, permitindo que as empresas possam investir, estruturar equipas, obter certificações e negociar financiamento antes da abertura formal dos processos de procurement.
3. O Conteúdo Local Precisa De Deixar De Ser Uma Política De Inclusão Para Se Tornar Uma Política De Competitividade
Na minha visão, a prioridade já não deve ser apenas aumentar o número de empresas moçambicanas participantes. O objectivo deve ser aumentar a qualidade da sua participação.
Isso exige uma transformação profunda da forma como o mercado está organizado. Os operadores internacionais podem continuar a preservar os elevados padrões técnicos que caracterizam a indústria sem comprometer a eficiência dos projectos. Contudo, existe espaço para uma engenharia contratual mais inteligente, capaz de estruturar determinados pacotes de contratação em dimensões compatíveis com a capacidade operacional das empresas nacionais, particularmente nas actividades de suporte que não integram o caminho crítico da construção.
Ao mesmo tempo, Moçambique necessita urgentemente de desenvolver mecanismos específicos de financiamento para fornecedores do sector energético. Grande parte das empresas nacionais perde contratos não por falta de competência, mas por incapacidade de suportar necessidades de capital circulante, garantias bancárias, performance bonds ou aquisição antecipada de equipamentos. Um programa nacional de financiamento da cadeia de fornecimento, envolvendo banca comercial, instituições de desenvolvimento e mecanismos de garantia parcial de risco, teria um impacto muito superior a inúmeros programas tradicionais de apoio empresarial.
Paralelamente, torna-se indispensável criar programas permanentes de preparação empresarial orientados exclusivamente para Oil & Gas. Não para reduzir os padrões internacionais, mas para elevar as empresas nacionais até esses mesmos padrões, reforçando competências em HSE, compliance, gestão contratual, procurement internacional, governação corporativa, controlo financeiro e certificações técnicas.
Outra dimensão frequentemente negligenciada é a necessidade de estimular consórcios empresariais nacionais. A indústria petrolífera trabalha em escala. Muitas empresas moçambicanas possuem competências relevantes, mas permanecem excessivamente pequenas quando actuam isoladamente. A criação de consórcios tecnicamente estruturados permitiria combinar capacidades complementares, aumentar robustez financeira e disputar contratos actualmente inacessíveis.
4. A Verdadeira Riqueza Do Gás Será Medida Pela Qualidade Das Empresas Que Moçambique Conseguir Construir
Na minha opinião, o debate sobre conteúdo local precisa igualmente de abandonar o terreno da retórica e entrar definitivamente no domínio da gestão baseada em evidência.
Seria altamente recomendável que cada projecto de Oil & Gas publicasse, de forma trimestral, indicadores objectivos sobre contratação nacional, participação das empresas moçambicanas, distribuição sectorial dos contratos, volume financeiro adjudicado, tempo médio de pagamento, número de empresas qualificadas, financiamento mobilizado, programas de formação realizados e evolução da participação local ao longo do tempo. Aquilo que não é medido dificilmente pode ser gerido, e aquilo que não é transparente dificilmente pode ser aperfeiçoado.
Este tipo de informação permitiria identificar estrangulamentos, corrigir assimetrias e orientar políticas públicas com muito maior precisão, transformando o conteúdo local num verdadeiro instrumento de política industrial e não apenas num indicador institucional.
5. O Maior Legado Do Mozambique LNG Não Será O Gás. Será A Capacidade Empresarial Que Deixar Em Moçambique
Como economista, continuo convencido de que os grandes projectos não transformam economias apenas porque movimentam milhares de milhões de dólares. Transformam economias quando conseguem deixar capacidades permanentes.
Se, dentro de dez anos, Moçambique possuir centenas de empresas certificadas, financeiramente robustas, tecnologicamente evoluídas e capazes de competir em qualquer projecto internacional de Oil & Gas, então poderemos afirmar que Afungi cumpriu verdadeiramente a sua missão económica. Caso contrário, teremos apenas exportado gás, enquanto importávamos quase toda a inteligência produtiva necessária para o fazer.
É por isso que considero que o verdadeiro sucesso do Mozambique LNG não será medido pelo número de navios que partirão carregados de gás natural liquefeito, mas pelo número de empresas moçambicanas que conseguirão crescer, inovar, internacionalizar-se e permanecer competitivas muito depois de o primeiro carregamento deixar a Península de Afungi.
No final, a maior reserva estratégica de Moçambique talvez nunca tenha estado apenas no subsolo de Cabo Delgado. Ela sempre esteve, e continuará a estar, na capacidade do país transformar recursos naturais em conhecimento, conhecimento em empresas competitivas e empresas competitivas numa economia verdadeiramente industrializada. Esse será, em última análise, o maior dividendo económico que o Mozambique LNG poderá deixar às futuras gerações.
Texto: Clésio Foia, Economista-Chefe




