“Estamos Perante uma Nova Era de Ajustamento ou o Início de um Novo Ciclo de Crescimento?”
Há momentos na história económica de um país que passam despercebidos ao cidadão comum, mas que, anos depois, revelam-se como verdadeiros pontos de inflexão. A recente missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) a Moçambique pode muito bem ser um desses momentos.
À primeira vista, trata-se apenas de mais uma visita técnica, mais um comunicado diplomático e mais uma ronda de negociações entre o Governo, Banco Central, e uma instituição financeira internacional. Porém, para quem observa a economia através das lentes da macroeconomia, dos mercados financeiros e da estabilidade cambial, esta missão representa algo muito maior, “ela pode estar a desenhar os contornos da próxima arquitectura económica de Moçambique”.
Num contexto marcado pela recuperação gradual da actividade económica, pela aceleração da inflação, pela persistente escassez de divisas e pelas crescentes incertezas e fragmentação internacional decorrentes da guerra no Médio Oriente, o diálogo entre Maputo e Washington surge num momento particularmente delicado.
A questão central já não é apenas saber se haverá um novo programa com o FMI. A verdadeira questão é compreender que tipo de economia Moçambique pretende construir na próxima década.
- A Economia Está a Recuperar, Mas Ainda Caminha Sobre Gelo Fino
O FMI reconhece que a economia moçambicana iniciou um processo de recuperação após a desaceleração observada em 2025. Este reconhecimento é importante. Significa que os principais fundamentos macroeconómicos permanecem relativamente estáveis, que os sectores produtivos continuam a demonstrar capacidade de adaptação e que os grandes investimentos estruturantes mantêm potencial para impulsionar o crescimento futuro.
Contudo, a recuperação ainda está longe de ser robusta. Quando observamos os indicadores mais recentes, percebemos que a economia continua vulnerável a choques externos, à volatilidade dos preços internacionais e às limitações estruturais que há anos condicionam o crescimento nacional.
Uma economia pode voltar a crescer sem necessariamente voltar a prosperar. E esta é exactamente a fase em que nos encontramos. O motor voltou a funcionar, mas ainda não atingiu a velocidade de cruzeiro.
2. O Verdadeiro Problema Não Está na Inflação. Está na Falta de Dólares
Durante anos, o debate económico nacional concentrou-se excessivamente e directamente na inflação. Mas hoje o principal desafio da economia moçambicana encontra-se noutro lugar.
O problema chama-se liquidez cambial. Ou, de forma mais simples, disponibilidade de dólares. Depois surge a velha questão cuja a sua resposta promove narrativas enigmáticas, pois, uns dizem que há, e outros gritam aos quatro ventos de que não há. Bom, mas o facto é que a economia desvenda a existência de uma escassez estrutural de divisas, que em tão logo, transformou-se num dos maiores constrangimentos para o sector privado. Empresas importadoras, cidadão particulares enfrentam dificuldades crescentes para abrir cartas de crédito, liquidar encomendas internacionais e honrar compromissos com fornecedores externos, ou ainda fazer compra que satisfaçam uma mera necessidade de consumo.
Ademais, muitos exportadores internacionais passaram a exigir pagamentos antecipados. Outros reduziram os prazos de financiamento comercial. Alguns simplesmente deixaram de fornecer ao mercado moçambicano.
Na prática, o que está em causa não é apenas uma questão cambial. É uma questão de confiança. Nos mercados internacionais, a confiança é uma moeda tão importante quanto o próprio dólar.
Quando um fornecedor começa a duvidar da capacidade de pagamento dos seus clientes, o custo financeiro sobe imediatamente. O resultado é um aumento do custo das importações, redução da oferta de bens e perda de competitividade empresarial.
É exactamente neste ponto que uma eventual flexibilização da política cambial começa a ganhar relevância.
3. A Flexibilização Cambial: O Cenário Mais Provável nas Conversações com o FMI
Embora ainda não exista qualquer anúncio oficial, a experiência internacional demonstra que programas apoiados pelo FMI frequentemente incluem recomendações para tornar o regime cambial mais flexível. Em termos simples, isso significa permitir que a taxa de câmbio recflita de forma mais próxima as condições reais do mercado.
Num contexto de escassez de divisas, esta medida pode resultar numa depreciação gradual do metical face ao dólar. Ou seja, seriam necessários mais meticais para comprar a mesma quantidade de dólares.
À primeira vista, esta possibilidade gera preocupação. E compreensivelmente. Mas a análise económica exige que observemos simultaneamente os custos e os benefícios.
4. O Lado Positivo: Mais Dólares, Mais Comércio e Mais Investimento
Uma taxa de câmbio mais flexível pode contribuir para reduzir os desequilíbrios existentes no mercado cambial.
Quando o preço da moeda estrangeira reflecte melhor a sua escassez relativa, tende a aumentar a oferta de divisas ao sistema financeiro. Exportadores ficam mais incentivados a converter receitas. Investidores externos ganham maior previsibilidade. Os fluxos de capitais tornam-se mais dinâmicos. Os bancos passam a dispor de maior capacidade para financiar operações de comércio internacional.
Este aspecto é particularmente importante para Moçambique, actualmente, inúmeras empresas enfrentam dificuldades para aceder a dólares necessários à importação de combustíveis, equipamentos industriais, matérias-primas, medicamentos e produtos alimentares.
Uma maior disponibilidade de divisas poderia aliviar significativamente estas pressões. Poderia também melhorar o funcionamento dos mecanismos de trade finance, essenciais para o abastecimento regular da economia.
Quando o sistema financeiro consegue garantir pagamentos internacionais com maior previsibilidade, toda a cadeia económica beneficia. Desde o importador até ao consumidor final.
5. O Sector dos Combustíveis Pode Ser Um dos Maiores Beneficiários
Poucos sectores sentem tanto os efeitos da escassez cambial quanto o mercado dos combustíveis.
A importação de derivados de petróleo exige disponibilidade permanente de moeda estrangeira. Qualquer interrupção ou atraso no acesso a divisas cria tensões imediatas sobre os abastecimento.
Uma maior fluidez cambial poderá contribuir para reforçar a capacidade de importação dos operadores.
Num momento em que os preços internacionais enfrentam pressão devido ao conflito no Médio Oriente, esta estabilidade torna-se ainda mais relevante.
Não elimina os riscos externos. Mas reduz vulnerabilidades internas. E isso faz uma enorme diferença.
6. O Outro Lado da Moeda: O Risco Inflacionário
Contudo, nenhuma decisão económica é gratuita. Toda escolha implica custos. E o principal risco associado à flexibilização cambial chama-se inflação importada.
Moçambique continua a ser uma economia fortemente dependente das importações. Importamos combustíveis, Importamos fertilizantes, Importamos medicamentos, Importamos máquinas, Importamos equipamentos, Importamos grande parte dos bens de consumo industrializados.
Quando o metical perde valor, todos esses produtos tornam-se mais caros, é aqui que surge um conceito fundamental da macroeconomia moderna: o Exchange Rate Pass-Through, ou efeito de transmissão cambial.
7. O Que É o Pass-Through Cambial?
O Pass-through cambial mede a velocidade e intensidade com que uma alteração na taxa de câmbio se transforma em inflação. Imaginemos que hoje uma empresa necessita de 64 meticais para comprar um dólar. Se amanhã forem necessários 70 meticais para adquirir a mesma unidade monetária, o custo das importações aumenta automaticamente.
Esse aumento é posteriormente incorporado nos preços dos produtos vendidos ao consumidor. O combustível fica mais caro. O transporte fica mais caro. A logística fica mais cara. Os alimentos ficam mais caros. Os materiais de construção ficam mais caros.
Pouco a pouco, a inflação espalha-se por toda a economia. É como uma onda que começa no oceano cambial e acaba por atingir todas as praias do consumo nacional.
Texto: Clésio Foia – Economista-Chefe
(Foto DR)