Nacional

O que era a grande esperança de um novo Azagaia para o povo moçambicano converteu-se em lágrimas e luto nacional

Conhecido artisticamente como MC Mastoni, o jovem cantor perdeu a vida na Estrada Nacional após um concerto em Mafambisse. O companheiro de viagem sobreviveu ao embate e relata os pormenores do violento atropelamento causado por um camião zimbabueano.

A música moçambicana e, de forma particular, o rap de intervenção social acordaram mergulhados numa profunda consternação. O jovem e promissor artista Víctor Moreira, artisticamente conhecido pelo pseudónimo de MC Mastoni, apontado por uma legião crescente de admiradores como a nova esperança para preencher o vazio deixado pelo histórico rapper Azagaia, perdeu tragicamente a vida na sequência de um violento acidente de viação. O malogrado deixa viúva e um filho menor.

O fatídico sinistro ocorreu na madrugada deste sábado, 18 de Julho, logo após o músico ter terminado uma actuação num bar local denominado “Sabor”, situado nas proximidades da Escola Secundária do Posto Administrativo de Mafambisse, no distrito do Dondo, província de Sofala. De acordo com informações colhidas, o malogrado artista e o seu amigo próximo seguiam numa motorizada em direcção à localidade de Mutua, onde fixavam residência, quando foram surpreendidos por um cenário climatérico adverso e uma colisão fatal.

Em declarações da perda do amigo, a quem considerava um verdadeiro irmão desde os tempos em que ambos partilhavam formação na cidade de Chimoio, o jovem que viajava na parte traseira da motorizada descreveu a sequência dos acontecimentos que culminaram na tragédia. Segundo a sua narração, o concerto já havia sido marcado por um desentendimento contratual de última hora.

“Havia uma pessoa que tinha apostado um valor para o show, mas só pagou metade e restou a outra parte. Quando chegamos ao local, ele recusou-se a pagar o valor remanescente. O Víctor bateu o pé e disse que não iria actuar sem o pagamento completo. Como a situação não se resolveu, decidimos regressar. Ele pegou na mota e começou a conduzir rumo a casa”, relatou o amigo sobrevivente.

O percurso de regresso, contudo, revelou-se uma armadilha devido às condições meteorológicas da região. A visibilidade na estrada estava gravemente reduzida devido a um intenso e cerrado cacimbo (nevoeiro denso). Já muito próximo da zona de Mutua, um camião de mercadorias com matrícula da vizinha República do Zimbábue colheu a motorizada de forma violenta.

“Por causa do cacimbo em excesso, o camião atropelou-nos. Como o Víctor estava à frente a conduzir, sofreu o impacto directo na zona da cabeça e teve ferimentos muito graves, nem conseguiu resistir. Eu fui projectado para o outro lado da via. Sofri ferimentos sérios no pé, nos braços e na barriga devido ao arrastamento no chão”, explicou a testemunha ocular, acrescentando ainda que o motorista do camião zimbabueano chegou a descer da cabine para avaliar a situação, mas acabou por se colocar em fuga sem prestar qualquer socorro às vítimas.

Victor Moreira conquistou inicialmente a simpatia do público moçambicano através de uma abordagem artística singular, misturando o ritmo frenético do hip-hop com o humor quotidiano. O seu primeiro grande sucesso popular, o tema viral “Diarreia no Chapa”, tornou-se rapidamente num fenómeno nas redes sociais e nos transportes públicos de todo o país, ao retratar com sátira apurada as peripécias e os dilemas dos passageiros nas grandes cidades.

Contudo, a sua evolução artística rapidamente transcendeu o campo puramente humorístico. Nos últimos tempos, o músico vinha a consolidar-se na arena da música de intervenção social e cidadania. Composições recentes como “Combustível” — que aborda o custo de vida e a crise de transportes — e a aclamada “Carta para o Presidente da República” elevaram o seu estatuto. Esta última obra, marcada por uma lírica frontal que expõe as dificuldades da juventude e as falhas da governação, fez com que muitos amantes do género o passassem a rotular como o legítimo herdeiro artístico de Édson da Luz (Azagaia).

O desaparecimento físico prematuro de MC Mastoni deixa a cultura nacional órfã de uma voz que começava a dar corpo às aspirações e desabafos da população mais vulnerável.

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