Analistas alertam para “terceirização da soberania” no financiamento às forças ruandesas em Cabo Delgado

A recente possibilidade de o Governo moçambicano financiar directamente as forças militares do Ruanda, que combatem o terrorismo na província de Cabo Delgado, está a gerar forte preocupação no seio da academia. Cientistas políticos alertam para os riscos de dependência externa e para a falta de transparência nos acordos bilaterais entre Maputo e Kigali.

Para o cientista político Ricardo Raboco, a forte dependência de uma força estrangeira para garantir a estabilidade interna empurra o País para uma “zona cinzenta” bastante perigosa. O analista adverte que os resultados operacionais positivos no terreno não devem ofuscar os impactos estruturais a longo prazo.

“Esta eficácia imediata (…) pode esconder a erosão gradual da nossa capacidade de defesa”, alerta Raboco, sublinhando que o modelo actual pode configurar uma verdadeira “terceirização da soberania” nacional.

O académico aponta ainda que o silêncio e a comunicação fragmentada do Executivo alimentam rumores e minam a confiança pública. Segundo o analista, esta obscuridade levanta três suspeitas legítimas, nomeadamente uma eventual fragilidade negocial de Maputo perante Kigali, a existência de compromissos políticos não divulgados e o receio do impacto na opinião pública sobre o custo real da operação militar.

Por sua vez, o cientista político Zito Pedro questiona a eficácia da cooperação no que diz respeito à capacitação das Forças de Defesa e Segurança (FDS) moçambicanas. Volvidos vários anos de conflito, o analista nota que ainda não é evidente uma transferência substancial de conhecimento estratégico e táctico para as forças locais.

“Há uma tendência inteligente da presença do Ruanda dentro do teatro de operações norte que faz com que pareça-nos que teremos que depender deles até onde eles entenderem que já basta”, afirma Zito Pedro.

O especialista sugere que a fixação das tropas ruandesas em áreas geográficas específicas e estratégicas deixa transparecer a existência de interesses e dividendos secundários por trás do apoio militar.

Ambos os analistas, que falavam no programa Noite Informativa da STV, convergem na urgência de o Executivo adoptar uma postura de maior abertura e melhorar a sua estratégia de comunicação em contextos de conflito, esclarecendo os moçambicanos sobre os contornos reais desta parceria.

Imagem: DR

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