Uma nova vaga de emprego está a crescer na Índia, mas com uma ironia profunda: milhares de cidadãos estão a ser pagos para ensinar robôs de Inteligência Artificial (IA) a realizar tarefas físicas do dia-a-dia, sabendo que, no futuro, essas mesmas máquinas poderão substituir a mão de obra humana.
Equipados com câmaras presas na testa, smartphones e sensores nos pulsos, estes trabalhadores gravam minuciosamente cada movimento do seu corpo enquanto realizam actividades comuns, como dobrar toalhas, cortar frutas, passar roupa a ferro ou operar em linhas de montagem fabris. O objectivo das grandes empresas tecnológicas é recolher dados egocêntricos — ou seja, a visão em primeira pessoa — para que os robôs humanoides aprendam a mover-se e a interagir com o mundo físico exatamente como nós.
Segundo uma investigação recente da agência AFP, este mercado de recolha de dados biométricos e de movimento está a expandir-se rapidamente no país mais populoso do mundo, atraindo desde donas de casa a vendedores ambulantes devido aos salários locais atrativos. Uma das trabalhadoras entrevistadas em Chennai, por exemplo, chega a ganhar cerca de 165 meticais (250 rupias) por hora apenas para filmar a sua rotina doméstica.
Apesar do ganho financeiro imediato, o paradoxo gera preocupação entre os próprios formadores de IA. Muitos confessam o receio de que o seu trabalho actual tire a oportunidade de subsistência das próximas gerações no sector informal e industrial. Em contrapartida, as empresas do ramo defendem que a automação vai libertar as pessoas de tarefas repetitivas e perigosas, permitindo-lhes assumir funções de maior valor ou até gerir os próprios robôs remotamente.
Imagem: AFP