O filósofo e académico moçambicano, Severino Ngoenha, lançou um forte aviso sobre a fragilidade da estabilidade social e política em Moçambique. Numa reflexão profunda sobre o percurso do país, o Reitor da Universidade Técnica de Moçambique (UDM) comparou a actual conjuntura nacional a “uma grande selva com capim seco”, onde qualquer pequeno fósforo ou faísca pode desencadear um incêndio de proporções imprevisíveis.
Para o catedrático, os problemas estruturais que o país enfrenta não vão encontrar uma solução efectiva através de meras “acomodações de partidos” ou de jogos de interesses políticos e de elites. A verdadeira saída, defende Ngoenha, passa necessariamente pela criação de sistemas inclusivos, onde cada cidadão moçambicano se sinta, de facto, parte integrante de um destino comum.
Ao analisar os processos de paz, numa reportagem da STV, o filósofo recuperou uma reflexão partilhada pelo também intelectual Luís Bernardo Honwana sobre os Acordos de Roma (1992). Ngoenha argumenta que o que se viveu em Roma não foi uma paz efectiva, mas sim um “armistício”.
A grande falha do processo, segundo o académico, foi a ausência de um dos principais protagonistas e dinamizadores da guerra de desestabilização de 16 anos: o regime do apartheid da África do Sul.
“Quem iniciou a guerra foi a África do Sul. Foi dele que surgiram as metamorfoses que criaram os conflitos internos“, recordou Ngoenha, lamentando que estes actores nunca tenham estado sentados à mesa das negociações para uma reconciliação real e total.
Olhando para o presente, Severino Ngoenha questiona o resultado prático do conflito armado, rejeitando a ideia de que a Frelimo ou a Renamo tenham saído vitoriosas. “Quem venceu a guerra de 16 anos? Nós perdemos. Moçambique perdeu, ficou destruído”, sublinhou.
O académico apontou o dedo à actual submissão económica de Moçambique face à vizinha África do Sul, classificando-a como uma “dependência quase doentia” que estrangula o desenvolvimento e a soberania nacional. Como exemplo do sufoco económico, o reitor ilustrou com os gastos diários na importação de produtos básicos.
“Gastar 1 milhão de dólares por dia para comprar couve, cenoura e tomate… é uma dependência que estrangula e impede de viver qualquer país”, criticou.
Ngoenha concluiu deixando um desafio estratégico para a liderança nacional: é impossível pensar e consolidar a reconciliação e a paz interna em Moçambique sem olhar para além das fronteiras e sem redefinir, com urgência, as relações económicas e diplomáticas com os vizinhos mais poderosos da região.
Imagem: DR