Crise na LAM: Os bastidores da queda do comandante Zandamela e da diretora de Auditoria
A exoneração relâmpago de duas figuras de peso expõe uma guerra aberta entre a Comissão de Gestão e os defensores da “prata da casa” na companhia de bandeira.
As Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) continuam a navegar numa turbulência severa e sem desfecho à vista. Num ambiente descrito como “de cortar à faca”, a companhia de bandeira nacional foi abalada por duas exonerações de grande impacto em menos de 24 horas: a directora de Auditoria Interna, Gisela Mabota, e o administrador Técnico Operacional, comandante Jorge Zandamela Neves.
A crise institucional atingiu o seu ponto mais alto após uma auditoria minuciosa aos processos de compra e aluguer de aeronaves, cujo conteúdo acabou por abrir uma rota de colisão frontal entre os auditores e os gestores de topo da empresa.
Segundo apurou o jornal Canal de Moçambique, a faísca que acendeu a crise partiu de uma auditoria ordenada pelo próprio comandante Jorge Zandamela Neves em fevereiro de 2026. O objectivo era sindicar os contratos de aquisição de cinco aeronaves pela companhia — três Bombardier Q400 e duas Embraer E190 —, negócios esses herdados do tempo da gestão da Fly Modern Ark (FMA).
As conclusões dos auditores foram classificadas como “aterradoras”. Nenhuma das aeronaves passou nos testes de compliance (conformidade). Para agravar o cenário operacional, a auditoria revelou que, dos cinco aparelhos, apenas um Q400 se encontra actualmente em operação. Os restantes estão imobilizados ou dependem da canibalização de componentes (retirada de peças de uns aviões para reparar outros) para conseguir voar. Os dois Embraer E190, por exemplo, encontram-se retidos na África do Sul por problemas técnicos e negociações complexas com a fabricante.
O clima que já era tenso deteriorou-se por completo quando o administrador Financeiro (CFO), Francisco Lucas, entendeu que o relatório da auditoria tinha como propósito manchar a Comissão de Gestão e o Conselho de Administração. Diante disso, o CFO limitou a partilha de informações operacionais e financeiras cruciais exigidas pelos auditores para o esclarecimento de dúvidas.
O conflito escalou durante as sessões de contraditório. A equipa de auditoria, liderada por Gisela Mabota — antiga auditora da conceituada Ernst & Young —, recusou-se a facultar o rascunho (draft) final do documento aos administradores executivos devido à forma hostil como vinha sendo tratada.
Quando o relatório final com as conclusões “perturbadoras” foi finalmente entregue, este não foi enviado à Comissão de Gestão, mas sim directamente aos três administradores não-executivos que representam as empresas acionistas (HCB, CFM e EMOSE).
A reacção da liderança da LAM não tardou. No dia 30 de junho, através de uma ordem de serviço assinada por Francisco Lucas, Gisela Mabota foi exonerada do cargo de directora de Auditoria Interna.
No dia seguinte, 1 de julho, o Conselho de Administração avançou com a exoneração imediata do comandante Jorge Zandamela Neves das suas funções de administrador Técnico Operacional. Estas saídas forçadas vieram deitar mais gasolina na fogueira de uma companhia dividida entre os chamados outsiders (estranhos à organização) e os funcionários de carreira, defensores da “prata da casa”.
Actualmente, a Comissão de Gestão da LAM continua sob a liderança do sérvio Dane Kondic, como administrador delegado (CEO), enfrentando o desafio titânico de estabilizar uma empresa onde a confiança mútua parece ter-se desfeito por completo.
Imagem: DR




