Estudo alerta que mortes causadas por humanos põem em risco leões em Moçambique

A mortalidade causada por actividades humanas está a comprometer a sobrevivência a longo prazo dos leões em Moçambique de acordo com estudo feito no país.

Moçambique, que alberga a sétima maior população de leões em África, enfrenta uma ameaça crescente à viabilidade futura da espécie devido à mortalidade provocada por actividades humanas, segundo um estudo publicado na revista cientifica PLOS One que é referido na última edição da National Geographic.

O estudo destaca Moçambique como um ponto particularmente sensível no tráfico regional de partes de leão, tanto como país de origem como de trânsito.

A caça dirigida para obtenção de partes do corpo aumentou ao longo do tempo, passando de uma média de um leão por ano entre 2010 e 2017 para cerca de sete por ano entre 2018 e 2023.

Entre os materiais retirados das carcaças surgem ossos, esqueletos, cabeças, peles, patas, caudas, dentes e até corpos inteiros, num comércio ilegal associado a redes transnacionais de fauna bravia.

O trabalho identifica diferenças marcadas entre regiões. No Sul de Moçambique, incluindo a área do Parque Nacional do Limpopo, predominam a caça furtiva dirigida e as mortes em retaliação.

No centro, destaca-se a captura em armadilhas associadas à caça de subsistência. No norte, onde se localiza a Reserva Especial do Niassa, sobressaem a caça de troféu e a caça furtiva para partes do corpo.

A investigação, liderada por João Almeida, da Mozambique Wildlife Alliance e baseada em dados recolhidos entre 2010 e 2023, registou 326 incidentes de mortalidade causada por humanos envolvendo 426 leões no país. Os autores concluem que estes níveis de mortalidade são insustentáveis e poderão comprometer a recuperação de várias populações nacionais.

De acordo com o artigo, as principais causas directas de morte foram a captura acidental em armadilhas colocadas para caça de carne de mato e a caça furtiva dirigida para obtenção de partes do corpo, factores que, em conjunto, representaram 53 por cento dos incidentes.

Seguiram-se a caça legal de troféu, com 33 por cento, e as mortes em retaliação por conflitos com humanos, com 13 por cento.

Os investigadores assinalam ainda que o número anual de mortes aumentou significativamente ao longo do período em análise, passando de nove para 49 casos por ano.

Desde 2012, o total anual nunca ficou abaixo de 26 leões mortos por acção humana.

As projecções populacionais traçadas pelos autores sugerem cenários distintos, mas preocupantes. Na Reserva Especial do Niassa, considerada o principal bastião do leão no país, a população poderá manter-se estável, embora sob forte pressão e abaixo do seu potencial ecológico.

Já no Parque Nacional do Limpopo, o cenário é mais grave: sem o efeito de reposição proveniente da população vizinha do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, os investigadores admitem o risco de extinção local.

O artigo sublinha que muitas destas mortes passam despercebidas, sobretudo em áreas extensas, pouco vigiadas e com escassos recursos. Por isso, a dimensão real do problema poderá ser superior à registada.

Os autores defendem medidas urgentes a nível nacional, incluindo melhor monitoria das populações, reforço da fiscalização, combate às redes de tráfico, aplicação efectiva da legislação e mais investimento público e privado na gestão das áreas de conservação.

O estudo sustenta ainda que a conservação dos leões em Moçambique dependerá também de respostas sociais e económicas nas zonas rurais, onde pobreza, pressão sobre recursos naturais e conflitos com fauna bravia continuam a alimentar a mortalidade da espécie.  (Fonteː Kambaku)

 

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