“A subida do preço mínimo ao produtor não é apenas uma decisão agrícola, é um sinal económico de sobrevivência produtiva, reindustrialização rural e reconstrução silenciosa das cadeias de valor nacionais”.
Há decisões económicas que parecem pequenas quando vistas apenas no papel, mas que, quando observadas no terreno, carregam a força de uma verdadeira política de estabilização social. A revisão do preço mínimo do algodão caroço de 22 para 27 meticais por quilograma não é apenas uma alteração administrativa. Na prática, representa uma tentativa de travar a hemorragia silenciosa da agricultura comercial moçambicana.
Quando um país perde produtores agrícolas, não perde apenas produção. Perde renda rural, perde capacidade industrial futura, perde circulação monetária local, perde empregos indirectos, perde arrecadação fiscal e, acima de tudo, perde soberania económica. O campo deixa de produzir riqueza e transforma-se lentamente num território de sobrevivência.
É por isso que considero esta decisão do Governo, em coordenação com produtores e industriais, uma medida tecnicamente acertada e economicamente necessária. O aumento do preço mínimo do algodão e a inclusão das oleaginosas numa plataforma integrada de concertação revelam uma visão mais ampla sobre a necessidade de reconstruir cadeias de valor agrícolas num contexto de enorme pressão inflacionária global.
Mas o verdadeiro debate não está apenas no preço. O verdadeiro debate está naquilo que Moçambique ainda não conseguiu construir em torno do algodão, da soja, do gergelim e do girassol: uma cadeia industrial completa.
- O Algodão Não É Apenas Agricultura, É Indústria, Exportação e Moeda
Em economia industrial, o algodão é considerado uma commodity de elevado efeito multiplicador porque atravessa múltiplas etapas produtivas antes de chegar ao consumidor final. O problema histórico de África e particularmente de Moçambique é que exportamos matéria-prima e importamos riqueza transformada.
Na prática, a cadeia de valor do algodão funciona em várias etapas integradas:
- A primeira fase é a produção agrícola, onde o camponês produz o algodão caroço. Aqui entram sementes melhoradas, fertilizantes, assistência técnica, irrigação, mecanização e financiamento rural;
- Depois surge a fase do descaroçamento, onde a fibra é separada da semente. É nesta etapa que começa o valor industrial. A fibra segue para a indústria têxtil, enquanto a semente pode ser transformada em óleo alimentar, ração animal e subprodutos industriais;
- A terceira fase é a fiação e tecelagem, onde a fibra transforma-se em fio e tecido. É aqui que países industrializados capturam grande parte da margem financeira;
- Depois entra a indústria de confecção: uniformes, roupas, toalhas, lençóis, material hospitalar, vestuário industrial e exportação têxtil; e
- Finalmente surge o comércio, logística, exportação e distribuição.
Ou seja, um simples quilograma de algodão pode atravessar cinco ou seis níveis de agregação de valor antes de chegar ao consumidor final.
É precisamente aqui onde Moçambique ainda perde biliões de meticais em valor económico potencial.
2.A Grande Fragilidade: Produzimos Algodão, Mas Importamos Roupa
“Este é um dos maiores paradoxos da economia moçambicana”
Temos terra, clima, mão-de-obra e tradição agrícola, mas continuamos altamente dependentes da importação de produtos têxteis. Isto significa que exportamos emprego potencial e importamos inflação industrial.
A Ásia compreendeu isto há décadas.
A China, Bangladesh, Vietname e Índia transformaram o algodão numa máquina de industrialização intensiva em mão-de-obra. Um simples cluster têxtil cria milhares de empregos directos e indirectos: costureiras, operadores industriais, logística, design, embalagem, comércio e exportação.
O Bangladesh, por exemplo, exporta mais de 45 mil milhões de dólares anuais em vestuário. Grande parte dessa riqueza nasce exactamente da capacidade de transformar fibras em produtos acabados.
Moçambique ainda está preso na fase primária da cadeia.
3. O Preço Mínimo Como Instrumento de Estabilidade Económica Rural
Do ponto de vista técnico, o preço mínimo agrícola funciona como um mecanismo de estabilização produtiva.
Sem previsibilidade de rendimento, o produtor abandona a cultura. Foi exactamente isso que aconteceu nos últimos anos, quando o número de produtores caiu de cerca de 250 mil para aproximadamente 150 mil.
Nenhum agricultor investe numa actividade onde o risco climático é elevado, o financiamento é escasso e o preço final não cobre sequer os custos operacionais.
O novo preço de 27 meticais procura restaurar incentivos económicos mínimos.
Na prática, esta decisão tem vários impactos macroeconómicos:
- Primeiro, melhora o rendimento rural e aumenta circulação monetária nas economias locais;
- Segundo, reduz o abandono agrícola e protege cadeias produtivas estratégicas;
- Terceiro, ajuda a preservar capacidade industrial futura;
- Quarto, reduz pressão migratória rural-urbana; e
- Quinto, cria condições para expansão da base exportadora.
Mas o preço sozinho não resolve o problema estrutural.
4. Mas afinal de Contas, o Que Falta Para Transformar Agricultura em Indústria?
O maior erro histórico das economias africanas foi acreditar que crescimento agrícola isolado gera industrialização automática. Definitivamente não gera.
Sem financiamento produtivo, energia, logística, estradas, armazenamento, irrigação e indústria transformadora, a agricultura permanece uma actividade de sobrevivência.
Moçambique precisa urgentemente de criar um modelo integrado de agro-industrialização.
Isso implica:
- Instalar pequenas zonas agro-industriais próximas das áreas de produção;
- Criar fábricas de óleo alimentar a partir de girassol e soja;
- Desenvolver parques têxteis regionais;
- Atrair investimento para fiação e tecelagem;
- Criar linhas de crédito agrícola de médio prazo, acompanhado de seguros agrícola;
- Expandir seguro agrícola;
- Melhorar silos, armazenamento e transporte rural; e
- Investir em investigação agrícola e sementes adaptadas ao clima.
Sem isso, continuaremos presos numa economia extractiva agrícola de baixa produtividade.
5. As Oleaginosas Podem Ser o Novo Petróleo Agrícola de Moçambique
Pouca gente percebe a dimensão estratégica da soja, gergelim e girassol no mercado internacional actual.
A soja é base da indústria alimentar, produção de óleo e ração animal.
O girassol abastece indústrias alimentares e cosméticas.
O gergelim possui enorme procura nos mercados asiáticos e do Médio Oriente.
Num mundo pressionado pela insegurança alimentar e pela transição energética, as oleaginosas ganharam importância geopolítica,
Quem controlar cadeias agro-industriais eficientes terá capacidade de gerar divisas, emprego e estabilidade económica.
Moçambique possui vantagens naturais raras:
- Terra arável abundante, clima favorável, localização logística estratégica e proximidade de mercados regionais.
E quando assim é, o desafio não é produzir apenas mais, o desafio é transformar mais.
6. Contrabando, Custos Logísticos e a Economia Invisível
Outro problema estrutural é o diferencial regional de preços, quando países vizinhos oferecem preços mais atractivos, o produto atravessa fronteiras informalmente, isto significa perda de receita fiscal, desorganização da cadeia formal e redução da competitividade industrial doméstica, ou seja, perpetua a debilidade e inexistência da indústria doméstica do sector.
Além disso, os custos logísticos em Moçambique continuam extremamente elevados, com combustíveis caros, estradas deficientes, baixa mecanização e fraca capacidade de armazenamento reduzem margens de rentabilidade. Na prática, parte significativa do rendimento agrícola perde-se antes mesmo do produto chegar ao mercado.
7. A agricultura Precisa Deixar de Ser Vista Como Sector Social
Este talvez seja o ponto mais importante, enquanto continuarmos a tratar agricultura apenas como política social, nunca construiremos um verdadeiro sector agro-industrial competitivo.
Agricultura moderna é indústria, é tecnologia, é logística, é financiamento, é mercado, e é produtividade.
Os países que enriqueceram através da agricultura fizeram exactamente isso: industrializaram o campo.
8. Conclusão: O Algodão Pode Voltar a Costurar a Economia Nacional
A decisão de aumentar o preço mínimo do algodão e integrar as oleaginosas numa estratégia nacional de concertação representa um sinal positivo de reposicionamento económico.
Mas este deve ser apenas o primeiro passo.
O verdadeiro objectivo estratégico não deve ser apenas vender algodão caroço. Deve ser transformar Moçambique num centro regional de agro-processamento, indústria têxtil e transformação alimentar.
Porque nenhuma nação se desenvolve exportando apenas matéria-prima.
Os países que prosperam são aqueles que conseguem transformar recursos em indústria, indústria em empregos, empregos em renda e renda em estabilidade económica.
O algodão pode parecer apenas uma fibra agrícola.
Mas, quando correctamente integrado numa cadeia de valor industrial, pode transformar-se num dos fios mais importantes para tecer o futuro económico de Moçambique.
Por: Economista-Chefe Clésio Foia