Escassez de combustíveis trava recuperação do sector privado moçambicano
Apesar dos sinais de estabilização registados em Junho com a retoma da produção, a persistente falta de combustíveis e a escalada nos custos ameaçam asfixiar o ritmo de crescimento empresarial no país.
Segundo avança o jornal Zambeze, o sector privado moçambicano deu sinais ténues de estabilização no mês de Junho, interrompendo um ciclo contínuo de dois meses consecutivos de contracção. No entanto, o tecido empresarial nacional continua a navegar num cenário de forte turbulência, fortemente fustigado pelas dificuldades severas no abastecimento de combustíveis e pelo agravamento acelerado dos custos de produção. Os dados foram avançados pelo mais recente Purchasing Managers’ Index (PMI), uma ferramenta de referência global divulgada pelo Standard Bank e produzida pela S&P Global.
O indicador crucial para aferir a saúde da actividade empresarial fixou-se na marca exacta dos 50,0 pontos em Junho, operando uma ligeira subida face aos 49,9 pontos registados no mês de Maio. Na métrica do PMI, o valor de 50,0 funciona como a linha de água do equilíbrio: qualquer registo acima sinaliza expansão, enquanto valores inferiores apontam para uma contracção. O resultado actual indica que as condições de negócio estancaram a sua deterioração, embora a recuperação económica permaneça manifestamente frágil.
Segundo o relatório detalhado, este tímido crescimento da produção e o fluxo de novas encomendas foram impulsionados principalmente pela conquista de novos clientes, pelo lançamento de produtos, pela abertura de novas sucursais e pelo esforço de reposição de stocks. Contudo, este dinamismo encontra-se severamente condicionado.
A crise no fornecimento de combustíveis tem gerado uma reacção em cadeia na economia nacional, provocando uma pressão asfixiante sobre os preços globais e impondo restrições críticas nas cadeias logísticas de abastecimento. Junho testemunhou o aumento mais acentuado dos custos de produção dos últimos quatro anos. Esta escalada foi inflacionada não apenas pela escassez de combustíveis, mas também pelo encarecimento generalizado das matérias-primas essenciais.
Os preços dos factores de produção cresceram ao ritmo mais veloz registado desde Fevereiro. Em simultâneo, os encargos com o pessoal e salários voltaram a subir, reflectindo reajustes decorrentes de pressões de mercado e políticas governamentais. Como consequência imediata, as empresas viram-se obrigadas a repercutir estes custos adicionais directamente no consumidor final, gerando o maior aumento nos preços de venda ao público desde Setembro de 2022.
Em contrapartida directa às dificuldades de tesouraria e à falta generalizada de produtos essenciais no mercado, as empresas moçambicanas reduziram as aquisições de combustíveis pelo quarto mês consecutivo. Como reflexo desta postura defensiva, os inventários voltaram a cair de forma expressiva, assinando a maior quebra desde Dezembro de 2024. Este cenário é fortemente agravado pelos estrangulamentos logísticos e pelas perturbações contínuas nas cadeias internacionais de distribuição.
No capítulo do emprego, subsiste uma nota moderadamente positiva: pelo décimo terceiro mês consecutivo, as empresas expandiram os seus quadros de trabalhadores, ainda que o ritmo de contratação global tenha abrandado devido à baixa produtividade actual e à desaceleração da actividade económica.
Apesar do ambiente adverso, as expectativas dos empresários quanto ao futuro alcançaram o nível mais elevado dos últimos três anos, alimentadas pelas perspectivas de expansão de mercado a médio prazo, melhoria das vendas e pelo arranque de grandes projectos económicos. Todavia, a leitura macroeconómica de curto prazo exige cautela redobrada. O economista-chefe do Standard Bank Moçambique, Fáusio Mussá, alerta que o agravamento dos preços dos combustíveis continuará a actuar como uma forte barreira à retoma.
Face a este quadro inflacionário e às pressões fiscais, o Standard Bank reviu em alta drástica a sua projecção de inflação para o final de 2026, disparando de 4,6% para uns expressivos 8,9%. Em paralelo, a instituição cortou a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique para uns modestos 0,7% (contra os 1,1% previstos anteriormente), justificando a revisão com a perda de velocidade da economia e a escassez severa de liquidez em moeda estrangeira.
Perante este cenário macroeconómico complexo, Fáusio Mussá admite que o Banco de Moçambique poderá ser forçado a intervir, revertendo a tendência recente e aumentando novamente a taxa de juro de política monetária (MIMO) durante o segundo semestre deste ano.
A médio e longo prazo, o sucesso e a sustentabilidade da recuperação económica nacional dependerão crucialmente do avanço efectivo dos projectos de Gás Natural Liquefeito (GNL) — capazes de dinamizar a procura agregada — bem como da continuidade das reformas estruturais e da adopção de políticas macroeconómicas sólidas.
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